quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Stanislaw Ponte Preta e a Batalha do Leblon

Olá, pessoas!
Depois de uma super treta que tive com meu notebook, onde cheguei a perder (#todoschora) um belo (e não-grande!) texto que ia trazer pro blog, e mais treta com a internet de casa que falhou miseravelmente entre domingo de noite e segunda de noite, ambas me impedindo de subir qualquer texto que eu tivesse feito e que sobrevivesse ao notebook desmaiando, me estressei e preferi lhes trazer uma obra de autoria do meu cronista favorito: Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Sérgio Porto. O carioca é simplesmente genial. Tenho um livro com as melhores obras dele e lembro que o lia desde criança - embora muitas expressões e duplos sentidos eu só entendi anos mais tarde.
Costumo postar aqui no blog textos existenciais, reflexivos. Vamos estrear um texto risonho, cotidiano, como uma boa crônica deve ser. E olha que o Stanislaw morreu em 1968! Ah, a arte de romper a barreira do tempo com a arte que se faz. Ainda quero chegar aos pés desse cara.
Enfim, por hora, fiquem com o texto.
Abraço!


A Batalha do Leblon

por Stanislaw Ponte Preta
(Sérgio Porto)


Foi à noitinha, aí por volta das 20 horas, que a notícia correu pelas esquinas do Leblon, ganhou amplitude, espalhou-se pelo bairro e foi explodir como uma bomba na Delegacia de Polícia. Os bichos do circo armado perto da pracinha tinham picado a mula. Foi aí que começou a ignorância. O delegado não estava, é claro. O comissário também, é lógico, e a coisa sobrou na mão do prontidão...

— Chamem a Polícia! — berrou o infeliz.

— Mas a Polícia somos nós! — advertiu um outro guarda.

Refeito da distração, o prontidão começou a procurar seus superiores para saber como agir. À muito custo conseguiu telefonar para um primo da noiva do comissário e localizar o distinto.

— Peçam uma patrulha do Exército. — recomendou o comissário.

Pediu-se. Mas havia outras corporações disponíveis. E apelou-se para o Corpo de Bombeiros, para a Polícia Militar, Radiopatrulha e — ninguém até agora sabe explicar por que — um carro-socorro da Light [concessionária de energia elétrica do RJ].

— Talvez seja para evitar curto-circuito no leão — disse um mulato magrela, com cara de gozador.
Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto)

O elefante, segundo informações de um soldado desconhecido, seguira rumo à praia. Elefante, ao que se presume, não nada. Ou será que nada? O povo dava palpites, e, como sempre, do povo saiu um mais bem informado (pouquinha coisa), para dizer que na África nada sim, mas não era o caso deste, cujo se chamava Bômbolo, e que nascera num outro circo e nunca vira água a não ser em balde.

Já então havia uma multidão apreciando as manobras. A praça era uma das trincheiras, o Jardim de Alá era a retaguarda das tropas. Pela rua principal não passaria nenhum bicho que mata gente (salvo lotações, mas estes têm licença pra matar). Um homem de porte marcial, com muito mais estrelas do que os outros, reclamava contra a demora do tanque. Sim! Ele requisitara um tanque-de-guerra e isto começou a parecer ridículo a uns tantos e emocionante para outros. A preta gorda, que mal acabara de servir o jantar dos patrões, palpitou:

— Só onça tem umas quatro.

Mas o garoto que estava perto desmentiu, dizendo que estava farto de ir àquele circo e nunca vira onça nenhuma. Foi quando chegou o tanque. Não sabemos se vocês já repararam que tanque-de-guerra no asfalto fica mais deslocado do que — digamos — mulher nua dentro de um elevador do Ministério da Fazenda. O povo começou a desconfiar, vendo o tanque manobrando, que a coisa ia ser mais cômica do que trágica.

— O tigre foi pra Praia do Pinto — disse um crioulo.

— Pra Praia do Pinto vai nóis que semo pobre — retrucou seu companheiro, que usava uma camisa de meia e touca. Nessa altura apareceu correndo, lá do outro lado da praça, um soldado. Vinha acelerado e parou na frente do homem que tinha mais estrelas do que os outros. Fez uma continência legal e avisou que não havia elefante na praia. 

Imediatamente recebeu ordens de ir pelas casas avisando para que todo o mundo trancasse as portas por causa dos leões.

— Manda espiar primeiro se o leão já não entrou, senão é fogo na jacutinga, trancar porta com leão dentro — gozou o mulato.

O soldado explicou que não era preciso, porque não tinha leão. Nem leão, nem tigre, nem onça. Apenas um "popótis".

— Hipopótamo — corrigiu o que tinha mais estrelas do que os outros.

Então — já conhecido o inimigo — começou o cerco ao "popótis". Dos que estavam nas proximidades, poucos sabiam o que era um hipopótamo. Uns diziam que era maior do que elefante, outros diziam que era menor, mas muito mais feroz. E nessa troca de impressões ficaram até que surgiu um outro soldado que, vindo correndo em diagonal pela praça, bateu continência e disse pro de mais estrelas:

— O "popótis" se rendeu-se.

— Hipopótamo — voltou a corrigir o chefe, deixando passar a abundância de pronomes.

Soube-se que, realmente, o hipopótamo fora localizado dentro de um jardim, numa residência grã-fina, comendo girassóis. E logo depois apareceu na esquina o dono do circo, puxando um bicho que não era muito maior que um cachorro dinamarquês e que o acompanhava de passo pachorrento. Decepção geral, inclusive dos soldados, preparados para mais uma batalha que, como tantas outras, não houve!

— Ainda por cima o bicho come flor... — disse a preta gorda.

— Come flor sim, uai! — explicou o de touca. — Então tu não sabia que "popótis" é veterinário?

Nenhum comentário:

Postar um comentário